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ORIGENS

A GESTALT-TERAPIA NO CENÁRIO DA PSICOTERAPIA INFANTIL






 


O trabalho psicoterapêutico com crianças teve seu início no século passado a partir das contribuições da Abordagem Psicanalítica e veio se desenvolvendo ao longo dos últimos cinqüenta anos no bojo de outras abordagens do ser humano tal como a Abordagem Existencial-fenomenológica, particularmente através da Abordagem Centrada na Pessoa e mais recentemente da Gestalt-Terapia.





 

Os diversos termos que utilizamos freqüentemente para designar o trabalho psicoterapêutico com crianças como ludoterapia, psicoterapia infantil e psicanálise infantil costumam gerar confusões no que dizem respeito ao referencial teórico e à metodologia que abarcam. De modo geral, observamos sua utilização de forma indiscriminada, o que aumenta a probabilidade de interpretações generalizantes acerca das diferentes abordagens de trabalho psicoterapêutico com crianças que cada uma delas encerra.

 

Cremos que isso se dá, em parte, por conta da relativa hegemonia de uma determinada abordagem do ser humano no campo da psicoterapia – a psicanálise - e em outra, pelo fato da expressão “ludoterapia” fazer menção direta aos recursos utilizados no trabalho clínico com crianças, originando-se da tradução literal da expressão em inglês “play therapy”.

 

O termo “ludoterapia” surgiu no cenário das psicoterapias com a publicação do livro de Virginia Axline, intitulado “Ludoterapia” (Play Therapy, no original em inglês). A partir de sua publicação, disseminou-se o uso deste termo para designar todo e qualquer trabalho com crianças em função do uso de brinquedos enquanto recurso facilitador da expressão da criança no espaço terapêutico.

 

Porém, ao empreendermos uma retrospectiva das contribuições de cada uma das abordagens presentes no cenário das psicoterapias, vamos perceber que, não só a psicoterapia com crianças vem sendo associada há muito tempo ao uso de brinquedos como, atualmente, a maioria das propostas de trabalho com crianças, e não só a ludoterapia, dão-se com o uso de recursos lúdicos enquanto meios facilitadores, apesar de diferenças significativas na forma de cada uma das abordagens utilizá-los.

 

Assim, escolhemos usar o termo “Psicoterapia Infantil” por acreditar que seria o mais pertinente para designar o amplo campo de trabalho psicoterapêutico com crianças, o qual abarca alguns âmbitos específicos que daremos o nome de abordagens: podemos falar então de psicoterapia infantil de abordagem psicanalítica, psicoterapia infantil de abordagem cognitivo-comportamental e psicoterapia infantil de abordagem existencial-fenomenológica, vertente da qual a Gestalt-Terapia faz parte.

 

Baseados nisso, ao nos referirmos à psicoterapia de abordagem gestáltica, ou ainda gestalt-terapia com crianças, estaremos referindo-nos a uma proposta de psicoterapia com crianças, fundamentada nos pressupostos da Gestalt-Terapia enquanto uma abordagem psicoterápica, caracterizada por uma determinada visão de homem e de mundo e uma conseqüente metodologia de trabalho.

 

Podemos afirmar que as origens da Psicoterapia Infantil remontam ao final do século XIX quando a infância ganha um novo status e uma nova visibilidade dentro da sociedade, particularmente com o desenvolvimento da abordagem psicanalítica e as contribuições de Freud para a questão da origem das neuroses.

 

Duas de suas contribuições – a possibilidade do uso da interpretação com as crianças e a importância do brincar – serviram de base para que a psicanalista inglesa, Melanie Klein,  desenvolvesse o que poderíamos apontar como a primeira proposta sistematizada de trabalho clínico com crianças.

 

Melanie Klein propôs usar a linguagem lúdica, ou seja, o brincar da criança, como um substituto direto da verbalização: já que as crianças podiam se beneficiar da interpretação, mas não tinham condições de deitar no divã e “associar livremente”,  ela concluiu que a linguagem predominante da criança era a linguagem do brinquedo e, que era sobre ela que a interpretação deveria incidir, criando o que ficou conhecido como a "técnica do brinquedo" .

 

Além da inegável contribuição técnica que permitiu que se trabalhasse com crianças de qualquer idade, uma vez que a linguagem do brinquedo podia ser observada nas crianças desde muito cedo, Melanie Klein trouxe como contribuição teórica um olhar mais atento para o primeiro ano de vida da criança, caracterizando-o como crucial para todo o desenvolvimento da personalidade, particularmente em função das relações iniciais estabelecidas pela criança.

 

O trabalho de Melanie Klein ganhou muitos adeptos e a chamada Escola Inglesa de Psicanálise  predominou durante muito tempo no terreno da clinica psicoterapêutica com crianças.

 

Dentre seus adeptos, podemos destacar Donald Winnicott, pediatra de formação que gradativamente enveredou pelo caminho da Psicanálise interessando-se particularmente pelo trabalho com crianças e psicóticos.

 

 Uma de suas principais contribuições foi a importância conferida à maternagem, entendida como uma relação de acolhimento e cuidado estabelecida com o bebê desde o seu nascimento e encarada como constitutiva do ser, uma vez que, segundo ele, “sem a maternagem um bebê não existiria”.

 

Tal contribuição trouxe uma importante implicação na prática clínica com crianças, que foi o olhar mais cuidadoso e interessado para os pais e suas influências no processo terapêutico da criança.

 

Com o surgimento da Escola Francesa de Psicanálise, a Psicoterapia Infantil é brindada com uma outra importante contribuição: a noção de que a criança não é a “doente”, mas que sinaliza a doença de seus pais ou de sua família. Nesse momento, o foco da análise desloca-se da criança para os pais e inaugura uma outra possibilidade de manejo clínico, impensada até então: a partir das entrevistas iniciais com os pais, a análise pode ser indicada para um deles ou o casal e não obrigatoriamente para a criança.

 

A partir da emergência e do desenvolvimento de novas possibilidades de perceber o ser humano, particularmente no pós-guerra, constatamos como um grande marco na história da Psicoterapia Infantil a publicação do livro de Virginia Axline, intitulado “Ludoterapia” que junto com o estrondoso sucesso de “Dibs em busca de si mesmo”, da mesma autora, revolucionou a forma de se trabalhar psicoterapeuticamente com crianças por trazer em seu bojo uma visão de homem e de mundo bastante diversa da perspectiva psicanalítica.

 

Ainda que adotando o uso do brinquedo como recurso mediador da relação terapêutica, seus pressupostos pautados em uma perspectiva humanista, existencial e fenomenológica implicavam em um processo terapêutico absolutamente centrado na criança, com um mínimo de intervenção do psicoterapeuta, cuja principal função era a de acompanhar a criança no espaço terapêutico, realizando intervenções essencialmente descritivas.

 

O comportamento da criança não é mais interpretado como na abordagem psicanalítica, mas significado pela própria criança a partir da reflexão de sentimentos (Axline, 1984) realizada pelo psicoterapeuta.

 

A aceitação da criança exatamente como ela é, o respeito pelo seu tempo e pela sua capacidade em resolver seus próprios problemas, a não-diretividade das suas ações ou conversas, o estabelecimento de um sentimento de permissividade e o desenvolvimento de uma sólida relação de confiança entre criança e psicoterapeuta são os princípios básicos dessa nova forma de compreender e trabalhar psicoterapeuticamente com a criança.

 

Com o surgimento da Gestalt-Terapia e as contribuições de Violet Oaklander (1980), os pressupostos vinculados a uma visão de homem humanista, existencial e fenomenológica se mantiveram, embora a metodologia de trabalho com a criança tenha se expandido na direção de uma maior participação e atividade do psicoterapeuta, que através de suas técnicas objetivava ampliar a consciência da criança a respeito de seus padrões de evitação e suas possibilidades de escolha na interação com o mundo.

 

Com o posterior e progressivo desenvolvimento e fundamentação da Gestalt-Terapia com crianças, junto à perspectiva humanista, existencial e fenomenológica, somou-se à visão de campo e a atitude dialógica que, dentre outras implicações, concorreram para uma maior participação do contexto familiar na psicoterapia e no uso da técnica submetida aos princípios da relação dialógica.

 

Assim, o que denominamos características típicas da psicoterapia com crianças atualmente, e que estão presentes na GT com crianças, são herdeiras de um longo processo de desenvolvimento, e foram absorvidas pelas mais diferentes abordagens, segundo seus critérios de compreensão do ser humano e suas metodologias de trabalho.

 

São elas:

· o uso de recursos lúdicos

· a importância do brincar como meio de expressão e ação criativa no meio

· a possibilidade da psicoterapia com crianças de qualquer faixa etária

· a compreensão do contexto familiar como parte integrante da problemática apresentada pela criança

· a consideração de contextos mais amplos na sua compreensão e a possibilidade de trabalho com configurações familiares diferentes da família nuclear.

Nosso propósito aqui é justamente explorar  cada uma delas, com todos os seus desdobramentos, sob o ponto de vista teórico e pratico da Gestalt-Terapia.

 

Sejam bem vindos!




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