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04 março 2011

O pano de fundo das intervenções em GT com crianças: a relação terapêutica

Seja qual for o recurso lúdico escolhido pela criança ou a técnica utilizada pelo psicoterapeuta, o ponto central de qualquer processo terapêutico em Gestalt-Terapia é a relação que se estabelece entre a criança e o psicoterapeuta.
Antes de qualquer coisa, é a relação que podemos caracterizar como realmente “terapêutica”, ou seja, como o que realmente vai fazer diferença na possibilidade de reconfigurações mais satisfatórias na forma da criança relacionar-se consigo e com o mundo.
Para que uma relação efetivamente terapêutica se estabeleça é necessário a adoção de uma atitude dialógica caracterizada pela presença genuína do psicoterapeuta na relação, pela  sua inclusão nessa relação, ou seja, pela sua capacidade de se por no lugar da criança e pela  possibilidade de confirmação da criança e de todo o seu potencial criativo.
Tais características permitem que o processo terapêutico seja regido pêlos princípios básicos da aceitação, permissividade e respeito pela criança.
É necessário que o psicoterapeuta possua uma compreensão e genuíno interesse pela criança. O psicoterapeuta precisa gostar de crianças e conhece-las realmente. É interessante que tenha algumas experiências pessoais com crianças fora da situação terapêutica, para que ele as conheça e entenda como são realmente, em seu mundo fora do consultório.
Costumo “receitar” para os psicoterapeutas em formação, que freqüentem pracinhas, festas de aniversário e parques, além de realizarem um “estágio” com sobrinhos, primos e afilhados.
A familiaridade com crianças e com a linguagem lúdica não é absolutamente decisiva para a formação de um psicoterapeuta infantil, mas sem dúvida é um elemento facilitador, se ele puder discriminar  situações terapêuticas de situações cotidianas, evitando assim de se comportar como um adulto leigo no espaço terapêutico ou de tentar fazer psicoterapia com os filhos do vizinho ou com as crianças da pracinha.
Uma outra coisa importante é a forma como o psicoterapeuta vai se aproximar da criança. Psicoterapeutas que usam de uma linguagem do tipo “tatibitati” e que falam com a criança como animadores de festa, ao contrário do que imaginam, não costumam estabelecer uma relação satisfatória com a criança em função desse tipo de comportamento. Pelo caráter muitas vezes artificial desse tipo de procedimento, muitas crianças simplesmente odeiam serem tratadas assim.
Naturalmente, o psicoterapeuta precisa utilizar uma linguagem acessível a faixa etária da criança, sem jargões e formalismos e sem gírias não utilizadas pela criança. No entanto,  isso não significa que o psicoterapeuta precise se tornar outra pessoa, só porque está diante de uma criança. Nesse aspecto, vale lembra um das características básicas da relação de caráter dialógico que é a presença genuina do psicoterapeuta em contraposição ao "parecer", que aponta para um desempenho artificial de um papel.
No que diz respeito à inclusão, destacamos a disponibilidade do psicoterapeuta para entrar no mundo  da criança. È bom lembrar que a realidade da criança é diferente, em maior ou menor grau da realidade  do psicoterapeuta e, por isso, entrar na realidade da criança, não é se misturar com ela nem tampouco tentar traze-la para a realidade do psicoterapeuta.
Colocar-se no lugar da criança é se permitir ver o mundo segundo seus critérios e suas necessidades de forma a poder confirma-la como um ser singular que nesse momento só tem condições de perceber a realidade dessa forma e agir segundo essa percepção.
Como aceitar o menino que passou quase quatro meses gritando para a psicoterapeuta “Eu vou te matar” e “Eu vim horrorizar” se não praticarmos a inclusão?
Como aceita-lo se não mergulharmos em sua realidade  e encontrarmos e confirmarmos seus motivos e necessidades para tal manifestação?
Nesse caso especifico, ninguém até então havia ficado com ele até o fim; todo mundo havia desistido dele. Todas as pessoas que ele havia encontrado até então, respondiam a sua “agressividade” também com agressividade; essa era a única linguagem que ele conhecia.
Como aceita-lo sem que possamos nos colocar no lugar dele e experimentar ver o mundo sob sua ótica?
Sem o suporte de uma relação  baseada nesses princípios, as técnicas se tornam exercícios e o espaço terapêutico um simples lugar de recreação.
As intervenções técnicas surgem no contexto da relação e para que elas possam se efetivas é preciso que essa relação inspire confiança, exposição e entrega.
A centralidade da relação terapêutica é tal em Gestalt-Terapia que podemos afirmar que, antes de qualquer outro experimento, a própria relação terapêutica já se constitui em um experimento em si.
O que é realmente terapêutico é como o psicoterapeuta reage e se posiciona com relação ao comportamento  e as diversas formas de ser da criança . Inúmeras vezes, percebemos olhares incrédulos, expressões surpresas e visíveis embaraços vindos de crianças em psicoterapia diante de uma determinada atitude do psicoterapeuta.
As crianças chegam a psicoterapia com seus padrões relacionais e suas formas de ação e reação no mundo  estereotipadas e cristalizadas e, por isso, com expectativas bastante certas a respeito das formas de agir do psicoterapeuta.
Na medida em que descobrem, muitas vezes atônitas, que o psicoterapeuta se posiciona de uma outra forma nessa relação, inevitavelmente, em sua busca de auto-regulação na relação terapêutica , precisarão se posicionar de uma nova forma e isso , por si só, já possibilita mudanças tanto na forma de se comportar dessa criança como na sua  forma de encarar o mundo.
Se nos reportarmos a nossa visão de ser humano essencialmente relacional, constatamos que de fato não poderia ser diferente: se nos construímos na relação, certamente é também através da relação que encontraremos possibilidades de reconstrução e a relação terapêutica é o espaço privilegiado para que isso aconteça.
Sendo assim, a pergunta que não quer calar é: em que medida o psicoterapeuta dá mais importancia aos recursos ludicos, as "fofices" da sala de atendimento e as interessantissimas técnicas gestalticas em detrimento do investimento na possibilidade de trabalhar a e na relação?

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