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17 janeiro 2013

A metodologia clinica em GT com crianças: o psicoterapeuta em ação (2)


Em postagem anterior, apresentamos a metodologia de trabalho em Gestalt-Terapia e apontamos seu desdobramento em 3 níveis de intervenção: descrição, elaboração e identificação. Discorremos sobre o nivel da descrição e, nesse momento, partiremos para a compreensão do que estamos denominando de elaboração e identificação.
Quando a criança aceita intervenções que vão além da descrição, como questionamentos e propostas de experimentos, estaremos atuando no nível da elaboração. É nesse nível do trabalho fenomenológico que se localiza a grande maioria das técnicas gestálticas.
Como o próprio nome sugere, nesse nível, nossas intervenções têm flagrantemente o objetivo de desdobrar, esmiuçar, desenvolver e aprofundar aquilo que a criança vem trazendo ao espaço terapêutico. Cabe ressaltar que, a maior parte das crianças, ao contrário do que a leitura da bibliografia disponivel muitas vezes sugere, demora muito a chegar nesse ponto de trabalho e nem sempre se mostram tão desenvoltas ou produtivas como as crianças citadas nos livros. Oaklander (1980), apesar de seus inúmeros relatos bem sucedidos de exploração do material trazido pelas crianças, nos adverte: “Não quero dar a impressão de que em toda a sessão acontece algo de maravilhoso. Muitas vezes parece não acontecer nada de abertamente excitante e importante” ( p.219).
Para algumas crianças o simples fato de poder brincar em um espaço seguro, permissivo, acolhedor e confirmador com aquilo que ela queira escolher, da forma como ela escolher, já é o suficiente para promover as reconfigurações necessárias ao bem estar e ao resgate de um funcionamento saudável na sua interação com o mudo.
A possibilidade de o psicoterapeuta ir ao encontro da criança em seu espaço lúdico é de fundamental importância para a realização das intervenções. Muitas vezes,  ele precisará efetuar uma intervenção dentro da brincadeira,  utilizando a linguagem lúdica. Isso nos remete a um outro ponto crucial: a disponibilidade para brincar. Embora algumas crianças prefiram não envolve-lo em suas brincadeiras, fazendo com que ele assuma o papel de observador, constatamos que a grande maioria precisa que o psicoterapeuta faça parte dela. Na medida em que a linguagem lúdica é a predominante, então a brincadeira é o diálogo e o psicoterapeuta precisa participar.
Quando isso acontece, toda a atenção é pouca para que ele não se desloque do seu papel de psicoterapeuta. Brincar com a criança não é tornar-se criança no espaço terapêutico. Brincar com a criança não é reagir como se fosse uma criança. Brincar com a criança é poder compartilhar da importância e da magia daquela linguagem sem perder de vista a tarefa terapêutica. Inclusive porque, esta tarefa, com algumas crianças, pode implicar em desempenhar impecavelmente determinados papéis elaborados de forma minuciosa e distribuídos de acordo com suas necessidades. Exemplos típicos são aqueles que contemplam a encenação de situações cotidianas das crianças com os adultos, tais como mãe / filho, professor/ aluno, e criança /médico, onde geralmente cabe ao psicoterapeuta o papel da criança, e à criança o papel do adulto em uma típica inversão de papéis, reveladora de muitos aspectos significativos de sua vida.
Várias crianças, ao desenvolver tais atividades, determinam detalhadamente aquilo que o psicoterapeuta vai falar e a forma como ele deve agir na brincadeira. Nessas situações, cabe a ele atende-la, inicialmente, em todas as suas exigências no desempenho do seu papel. Muitas vezes, qualquer tentativa de mudança introduzida por ele,  é violentamente repelida pela criança, o que significa que ainda não é a hora de questionar  nada a respeito daquele comportamento ou daquela situação, nem dentro nem fora da brincadeira.
Algumas crianças não permitem que o psicoterapeuta saia da brincadeira para comentar coisas em “off”; outras só aceitam intervenções dessa forma. Outras, principalmente as menores, só permitem a aproximação ou qualquer intervenção dentro da linguagem lúdica através de um personagem. Geralmente, quando chegamos ao final do processo terapêutico, já é possível uma comunicação direta, sem intermediários, sendo este elemento inclusive um dos indicadores de término do  processo terapêutico.
 O uso de fantoches ou “dedoches” como recurso intermediário para a comunicação com as crianças vem trazendo bons resultados em nosso trabalho. Concordando com Oaklander (1980), acreditamos que o fascínio das crianças pelos fantoches se dê pela possibilidade de ter uma parte de si mesmo – suas mãos e braços - literalmente envolvida na brincadeira, dando “vida” a eles. A possibilidade de identificação com as diversas figuras representadas pelos fantoches, particularmente as figuras míticas, como reis, rainhas, bruxas, fadas, sacis, lobisomens e anjos, também parece contribuir para isso. Permite a “distância” necessária de uma figura humana “normal” para a projeção de determinados aspectos que a criança ainda não tem condições de aceitar e assimilar como seu.
O último nível de trabalho a que nos referimos é o que denominamos de identificação. Ele consiste na apropriação, por parte da criança, dos conteúdos de sua brincadeira e produção no espaço terapêutico. Em outras palavras, é quando a criança se identifica com o elemento do desenho, ou com o menino fantoche, ou com a escultura de argila, ou com o João Teimoso que só leva pancada, etc.
Nossa experiência demonstra que nem sempre a identificação é necessária. Muitas vezes, a partir da elaboração realizada através das intervenções técnicas do psicoterapeuta na linguagem lúdica, a criança reconfigura e resignifica seu campo sem que a identificação precise ser verbalizada.
 Em outros momentos, ela só realiza identificações claras na fase de término da psicoterapia, quando começa a efetuar “retrospectivas” de seu processo terapêutico.
Cabe ressaltar nesse ponto, que a realização de identificações não deve ser esperada como um critério de “progresso” da psicoterapia ou que sua presença deva figurar obrigatoriamente entre os elementos indicativos de término; embora a identificação seja possível ela não é condição obrigatória.
 A expectativa ou a exigência de que isso aconteça parece estar muito mais ligada à necessidade do psicoterapeuta do que particularmente das crianças, principalmente as menores que, pelo fato de se encontrarem em plena aquisição de suas capacidades cognitivas mais complexas e por não apresentarem ainda sua linguagem totalmente desenvolvida, nem sempre têm condições de realizá-la.


 

Um comentário:

  1. Como é o avanço das crianças que vc atende através desse tipo de terapia? É uma dúvida e curiosidade minha.

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