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16 abril 2011

A formação do Gestalt-terapeuta de crianças (1): a necessidade de um conteudo programático especifico



Na literatura da Gestalt-Terapia, encontramos algumas referências à questão da formação e supervisão de psicoterapeutas dentro de uma abordagem gestáltica de ser humano, mas nenhuma até então, especificamente relativa à formação de gestalt-terapeutas de crianças.
Tal fenômeno é congruente com o  ainda discreto desenvolvimento dos pressupostos fundamentais da abordagem no que concerne ao trabalho com crianças.
Assim, consideramos fundamental iniciar uma discussão acerca das bases e diretrizes adotadas para a formação do gestalt-terapeuta infantil de forma a não alimentar o que consideramos um círculo vicioso na Gestalt-Terapia com crianças: a ausência de formação específica e consistente gerando práticas pouco fundamentadas, que por sua vez, não se traduzem em produções acadêmicas que venham sustentar uma capacitação específica para gestalt-terapeutas infantis, e não contribuem para a produção teórica na abordagem, implicando novamente em uma prática divorciada da teoria.
Quando mencionamos a necessidade de um conteúdo  específico voltado  à formação do psicoterapeuta infantil, partimos do pressuposto básico de que a psicoterapia de crianças é fundamentalmente diferente da psicoterapia de adultos, impedindo assim a simples transposição, improviso ou adaptação do trabalho com adultos. 
Entendemos que a formação do gestalt-terapeuta infantil não pode ser um mero complemento, um apêndice da formação mais ampla do gestalt-terapeuta, algo que se vê em poucos meses, muitas vezes em final de curso, inserido no meio de outras possibilidades de aplicação da Gestalt-Terapia.
O trabalho com crianças possui especificidades suficientes que justificam uma formação específica, onde além dos pressupostos teóricos e técnicos da Gestalt-Terapia, o aluno possa também obter conhecimentos em Psicologia do Desenvolvimento, Psicopatologia, Psicofarmacologia e Psicoterapia Familiar, além de uma compreensão histórica da criança e da própria construção da Psicoterapia Infantil, suas origens, seu desenvolvimento, bem como as principais contribuições de outras abordagens na construção do cenário atual do trabalho clínico com crianças.
Uma vez que a Gestalt-Terapia tem sua visão de homem e de mundo baseadas numa perspectiva de campo, acreditamos que ela própria deva situar-se no cenário mais amplo das psicoterapias, reconhecendo suas heranças e os ajustamentos criativos realizados frente a tais contribuições, para poder se diferenciar como uma abordagem psicoterapêutica específica no cenário contemporâneo da Psicoterapia Infantil.
Quanto à Psicologia do Desenvolvimento e à Psicopatologia, elas constituem-se em conhecimentos fundamentais para todo e qualquer psicoterapeuta de crianças, independente de sua abordagem.
A concepção de ser humano em Gestalt-Terapia  permite-nos assimilar tais conhecimentos  uma vez que vamos considerá-los como partes de uma totalidade e não a totalidade em si, contextualizando-as e articulando-as aos demais elementos do campo, utilizando-as como norteadores e não como determinantes de uma compreensão diagnóstica.
Precisamos saber, por exemplo,  o que se pode esperar em termos de representações gráficas para as diferentes faixas etárias, para verificar se um desenho com garatujas  constitui-se em uma expressão típica para aquela idade ou apenas a sinalização de uma dificuldade neurológica ou expressiva. Garatujas em uma criança de três ou quatro anos vão ter um sentido diferente do que as mesmas garatujas em uma criança de 10 ou 11 anos, embora o gestalt-terapeuta não vá levar em consideração somente o aspecto cronológico para sua compreensão total.
O mesmo podemos afirmar a respeito da Psicopatologia: conhecer as “grandes síndromes” ou as classificações diagnósticas mais comuns, não nos servirá para reduzir a criança a tais descrições ou construir “receitas de bolo” para abordá-la, mas para reconhecer as regularidades importantes presentes nessas configurações e, com isso, poder estabelecer uma linguagem comum com os demais profissionais de saúde, sem abrir mão de nossa compreensão da singularidade de cada cliente.
No que diz respeito à Psicofarmacologia,  consideramos de extrema importância o conhecimento do gestalt-terapeuta acerca dos principais tipos de medicamentos, bem como suas indicações, contra-indicações e efeitos colaterais. Uma vez que possuímos uma perspectiva holística de ser humano, não podemos correr o risco de, por um lado, reduzir as possibilidades de ajuda para nosso cliente que sofre intervindo em apenas uma “parte”, por um pré-conceito em relação à medicação, e, por outro, não perceber os possíveis efeitos da medicação na configuração total do comportamento da criança e o quanto isso pode estar influenciando o nosso trabalho.
 Quanto à psicoterapia familiar, parece-nos bastante óbvio que um psicoterapeuta infantil deva saber como conduzir sessões onde os responsáveis e demais membros da familia possam estar presentes.  Ao trabalhar com crianças, jamais interviremos somente nela. Considerando que estar com um cliente individualmente é absolutamente diferente de estar com mais de um, tanto em termos de condução como de compreensão do que se passa no campo, particularmente quando se trata de “sistemas íntimos”, é fundamental que o gestalt-terapeuta tenha a possibilidade de obter conhecimentos acerca da perspectiva gestáltica de trabalho com casais e famílias.
 Muitos psicoterapeutas optam inicialmente por trabalhar com crianças, por considerarem “mais fácil”, baseados na premissa de que a criança não vai julgar a qualidade do seu trabalho ou de que não se consideram “preparados” para  trabalhar com adultos. Não é incomum observarmos tais psicoterapeutas surpreendidos com a “dificuldade” do trabalho clínico com crianças, seja pela própria condução das sessões através de uma linguagem lúdica, seja pelo manejo do caso como um todo que envolve várias sessões com adultos significativos no campo da criança.
Acrescentaríamos ainda que embora a criança não julgue o trabalho como um adulto, na medida em que ele não for facilitador ou se mostrar invasor ou desrespeitoso, a criança possui formas específicas de avaliá-lo e demonstrar seu descontentamento, seja através do estabelecimento de um vínculo tênue com o psicoterapeuta, seja recusando-se a voltar à psicoterapia.
Além desses conhecimentos específicos, consideramos também que ao trabalhar com crianças alguns tópicos do arcabouço teórico-técnico da Gestalt-Terapia precisam ser mais explorados, uma vez que a psicoterapia com crianças costuma exigir mais em alguns aspectos.
A compreensão diagnóstica é um bom exemplo: apesar do diagnóstico ser algo que inicialmente o psicoterapeuta realiza com todos os clientes, independente da faixa etária, na psicoterapia com crianças o momento de compreensão diagnóstica inicial costuma ser mais destacado em função da necessidade de se realizar devoluções, tanto para os responsáveis quanto para a escola e demais profissionais.
O trabalho com as funções de contato (visão, audição, tato, paladar, olfato, linguagem e movimento) é um outro exemplo, pois na medida em que a criança tem sua linguagem verbal pouco desenvolvida, as demais funções se apresentarão como porta de acesso fundamental à sua experiência nas sessões terapêuticas.
Desse modo, concluimos que a decisão de trabalhar psicoterapeuticamente com crianças é algo que envolve responsabilidade e muito investimento na busca do aporte teórico-prático especifico que efetivamente venha cobrir as vicissitudes surgidas durante o trabalho.
E você, como vem investindo na sua formação?



Um comentário:

  1. Olá Luciana, curto muito o blog e seu livro também! tenho apenas 1 ano de formada e não tive uma base de Gestalt na faculdade, então tento estudar por mim mesma e tbm faço supervisão. Tenho uma dúvida, trabalho em uma unidade de saúde, onde tudo é de um formato bem diferente dos moldes de uma clínica, consultório, há muitas limitaçoes, número de sessões, recursos lúdicos, enfim. De tudo que leio ou estudo, cabe mais ao modelo clínico. Tento adaptar e me adaptar tbm de alguma forma. Como vc vê essa questão? sem contar que tenho que atender crianças em grupo, é quase uma regra, p/ atendermos a demanda e é solicitação do SUS tbm, está muito difícil o manejo com grupos... Abraços, Daniela

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